quinta-feira, 23 de julho de 2026

 

... Quinta-feira, 3 de abril de 2025, 06:23.

 

Sonhei que estava morto. Passeava ao longo de uma praia, que era também uma biblioteca. Ao fundo, sentado numa rocha, junto ao mar, vi um velho. A mão direita acariciava uma bengala invisível.

 

Reconheci-o logo. Era Jorge Luis Borges.

 

Aproximei-me:

 

– O senhor também está morto? – perguntei.

 

– Não tenho certeza... – retorquiu Borges. – Talvez eu seja apenas um livro à espera de um leitor.

 

– Eu sim, estou morto! – confessei. – Eu estou completamente morto! Mas mesmo sabendo que estou morto, e que não posso ficar mais morto do que estou agora, continuo sentindo muito medo da morte.

 

Borges tentou tranquilizar-me:

 

– Imagine que a vida é um livro. A morte não é o fim do livro. É apenas a mesma história, contada por outro narrador.

 

Sentei-me ao seu lado. Dei-me conta de que tinha os sapatos cheios de areia. Descalcei-os e sacudi-os.

 

– Sabe dizer-me o que é a solidão? – perguntei.

 

Borges hesitou um breve instante.

 

A seguir agitou no ar a bengala invisível, apontado os livros ao redor:

 

– Está vendo está biblioteca? Imagine que todos estes livros tivessem sido escritos por si. Todos! Tantos livros e uma única voz. A esse inferno poderíamos chamar solidão.

 

(José Eduardo Agualusa – Tudo sobre Deus)  

sábado, 18 de outubro de 2025

Da porta do La Crónica Santiago olha a avenida Tacna, sem amor: automóveis, edifícios desiguais e desbotados, esqueletos de anúncios luminosos flutuando na neblina, o meio-dia cinzento. Em que momento o Peru se fodera? Os vendedores de jornais dão voltas por entre os carros parados no farol da avenida Wilson, anunciando os vespertinos, e ele caminha devagar em direção à Colmena. As mãos nos bolsos, cabisbaixo, segue escoltado por transeuntes que também avançam na direção da Plaza San Martín. Zavalita era como o Peru: tinha se fodido em algum momento.

 

(Mario Vargas Llosa – Conversa na catedral)


quarta-feira, 23 de julho de 2025

 

“Ah”, disse o rato, “o mundo torna-se a cada dia mais estreito. A princípio era tão vasto que me dava medo, eu continuava correndo e me sentia feliz com o fato de que finalmente via à distância, à direita e à esquerda, as paredes, mas essas longas paredes convergem tão depressa uma para a outra que já estou no último quarto e lá no canto fica a ratoeira para a qual eu corro.” — “Você só precisa mudar de direção”, disse o gato e devorou-o.

 

(Franz Kafka - Pequena fábula)

quinta-feira, 10 de abril de 2025

Foi embora, como todas. Pois das tantas mulheres que passaram por sua vida, muitas por breves horas, não houve uma só a quem insinuasse a ideia de ficar. Em suas urgências de amor era capaz de mudar o mundo para ir encontrá-las. Uma vez saciado, bastava-lhe a sensação de tê-las presentes na lembrança, de se entregar a elas de longe em cartas arrebatadas, de lhes mandar presentes avassaladores para se defender do esquecimento, mas sem comprometer nem um mínimo de sua vida num sentimento mais parecido com a vaidade do que com o amor.


(Gabriel García Márquez - O general em seu labirinto)

domingo, 16 de fevereiro de 2025

 

Proposição 42. A beatitude não é o prêmio da virtude, mas a própria virtude; e não a desfrutamos porque refreamos os apetites lúbricos, mas, em vez disso, podemos refrear os apetites lúbricos porque a desfrutamos.

 

(Espinoza – Ética)

sábado, 15 de fevereiro de 2025

 

SPINOZA

 

Gosto de ver-te, grave e solitário,

Sob o fundo de esquálida candeia,

Nas mãos a ferramenta de operário,

Na cabeça a coruscante ideia.

 

E enquanto o pensamento delineia

Uma filosofia, o pão diário

A tua mão a labutar granjeia

E achas na independência o teu salário.

 

Soem cá fora agitações e lutas,

Sibila o bafo aspérrimo do inverno,

Tu trabalhas, tu pensas, tu executas

 

Sóbrio, tranquilo, desvelado e terno,

A lei comum, e morres e transmutas

O suado labor em prêmio eterno.

 

(Machado de Assis)

sábado, 4 de janeiro de 2025

 

Camus era uma aventura singular de nossa cultura, um movimento cujas fases e cujo termo final tratávamos de compreender. Representava neste século e contra a história, o herdeiro atual dessa longa fila de moralistas cujas obras constituem talvez o que há de mais original nas letras francesas. Seu humanismo obstinado, estreito e puro, austero e sensual, travava um combate duvidoso contra os acontecimentos em massa e disformes deste tempo. Mas, inversamente, pela teimosia de suas repulsas, reafirmava, no coração de nossa época, contra os maquiavélicos, contra o bezerro de ouro do realismo, a existência do fato moral. Era, por assim dizer, esta inquebrantável afirmação. Por pouco que se o lesse ou refletisse a respeito, chocávamos com os valores humanos que ele sustentava em seu punho fechado, pondo em julgamento o ato político. Inclusive seu silêncio, nestes últimos anos, tinha um aspecto positivo: este cartesiano do absurdo se negava a abandonar o terreno seguro da moralidade e entrar nos incertos caminhos da prática. Nós o adivinhávamos e adivinhávamos também os conflitos que calava, pois a moral, se considerada isoladamente, exige e condena a rebelião. Qualquer coisa que fosse o que Camus tivesse podido fazer ou decidir à sua frente, nunca teria deixado de ser uma das forças principais de nosso campo cultural, nem de representar à sua maneira a história da França e de seu século.

 

A ordem humana segue sendo só uma desordem; é injusta e precária; nela se mata e se morre de fome; mas pelo menos a fundam, a mantêm e a combatem, os homens. Nessa ordem Camus devia viver: este homem em marcha nos punha entre interrogações, ele mesmo era uma interrogação que procurava sua resposta; vivia no meio de uma longa vida; para nós, para ele, para os homens que fazem com que a ordem reine como para os que a recusam, era importante que Camus saísse do silêncio, que decidisse, que concluísse. Raramente os caracteres de uma obra e as condições do momento histórico exigiram com tanta clareza que um escritor vivesse.

 

Para todos os que o amaram há nesta morte um absurdo insuportável. Mas, teremos que aprender a ver esta obra truncada como uma obra total. Na medida mesmo em que o humanismo de Camus contém uma atitude humana frente à morte que havia de surpreendê-lo, na medida em que sua busca orgulhosa e pura da felicidade implicava e reclamava a necessidade desumana de morrer, reconheceremos nesta obra e nesta vida, inseparáveis uma de outra, a tentativa pura e vitoriosa de um homem reconquistando cada instante de sua existência frente à sua morte futura.

 

(Escrito por Jean-Paul Sartre em 05 de janeiro de 1960, um dia após a morte de Albert Camus)

sábado, 21 de dezembro de 2024

 

O caso de Lindalva é especial. Descasou cedo de um fazendeiro de Marajó e aos 21 anos já estava no Rio com as pernas e cintura que Deus lhe dera de benções. Dizem que mulher paraense tem perna fina e bunda seca. Injustiça do vulgo. Aí está Lindalva até hoje, cada dia mais bem feita, ainda que perto dos quarenta. Passou dez anos no Rio (deixou com a mãe a filha pequenina) fazendo michê com clientes de hotel cinco estrelas. Até que arranjou um namorado, também fazendeiro, só que paulista. Já estava de malas e corações prontos para acompanhar o ricaço quando descobriu que ele era casado, com mansão na Avenida Paulista. Lindalva não conversou, nem se despediu, mais que tudo não chorou: tomou avião para Belém do Pará. Foi ver a filha, já taludinha, no internato do colégio de freiras, passou um fim de semana com ela no Mosqueiro, reviu duas ou três antigas amizades de escola e de procissão de festa do Círio de Nazaré. Uma delas mudou o caminho de Lindalva. Estava chegando do garimpo de Itaituba, para onde fora a fim de fazer a vida, vivia então como a amiga estava vendo, tudo do bom e do melhor, e com dinheiro no over. Lindalva, dona de duas sílabas sinceras, e que já tinha a vocação profissional, não fez outra coisa que mudar de praça. Uma semana depois já estava de casa alugada na capital do garimpo do Tapajós. Vistosa, cadeiruda, olhar de onça fingida, Lindalva virou a cabeça dos pobres e começou a esvaziar os bolsos dos endinheirados. Só dava pra piloto ou pra dono de pista, de vez em quando para um garimpeiro que bamburrava. Lindalva ficou menos de um ano, um dia sem mais nem menos desapareceu: é verdade que entrou no avião rindo feliz e dando pra todo mundo. Ganhou seu bom dinheiro, suado, graças aos seus naturais talentos mas também à sua engenhosa imaginação. Asseguro que o fato é verídico, quem me contou – e contou rindo – passou pelas artes dela.

 

Lindalva fazia tudo o que sabia para fazer o parceiro feliz. Assunto resolvido, ela já no robe de seda, o homem pedia mais. Ela não dizia que não, mas condicionava: só se for como eu gosto. Lindalva gostava era assim: endurecia o pau do cabra, até deixá-lo tinindo. Depois lambuzava todinho, devagar, com manteiga. Agora, dizia ela, polvilha ele com ouro, até ficar como se fosse um pau feito de ouro de verdade. Naquela altura dos conformes o homem não se fazia de rogado. Vem depressa, pedia Lindalva, como se estivesse faminta de macho e não de metal. Quando o parceiro já não dava mais, a moça chegava com uma bacia esmaltada e um lenço de seda, sabonete perfumado e lavava, cuidadosa, delicadamente, o pau do camarada, no qual não ficava o mais ínfimo pozinho.

 

Quando se via só, Lindalva partia para a segunda parte da extração do ouro: o que lhe ficara dentro da buceta. De cócoras sobre a mesma bacia, ela injetava um abundante jorro de água na vagina com a ajuda de uma pera de borracha adequada a esse tipo de operação.

 

Lindalva acabou cheia de grana com a sua invenção do cacete dourado.

 

(Thiago de Mello – Amazônia: a menina dos olhos)

sexta-feira, 13 de dezembro de 2024

 

Saímos de Manaus numa lancha pequena, e no meio da manhã navegamos no coração do arquipélago das Anavilhanas. A ânsia de encontrar Dinaura me deixou desnorteado. A ânsia e as lembranças da Boa Vida. A visão do rio Negro derrotou meu desejo de esquecer o Uaicurapá. E a paisagem da infância reacendeu minha memória, tanto tempo depois. Costelas de areia branca e estirões de praia em contraste com a água escura; lagos cercados por uma vegetação densa; poças enormes, formadas pela vazante, e ilhas que pareciam continente. Seria possível encontrar uma mulher naquela natureza tão grandiosa? No fim da manhã alcançamos o paraná do Anum e avistamos a ilha do Eldorado. O prático amarrou os cabos da lancha no tronco de uma árvore; depois procuramos o varadouro indicado no mapa. A caminhada de mais de duas horas na floresta foi penosa, difícil. No fim do atalho, vimos o lago do Eldorado. A água preta, quase azulada. E a superfície lisa e quieta como um espelho deitado na noite. Não havia beleza igual. Poucas casas de madeira entre a margem e a floresta. Nenhuma voz. Nenhuma criança, que a gente sempre vê nos povoados mais isolados do Amazonas. Os sons dos pássaros só aumentavam o silêncio. Numa casa com teto de palha pensei ter visto um rosto. Bati à porta, e nada. Entrei e vasculhei os dois cômodos separados por um tabique da minha altura. Um volume escuro tremia num canto. Fui até lá, me agachei e vi um ninho de baratas-cascudas. Senti um abafamento; o cheiro e o asco dos insetos me deram um suadouro. Lá fora, a imensidão do lago e da floresta. E silêncio. Aquele lugar tão bonito, o Eldorado, era habitado pela solidão.

 

(Milton Hatoum – Órfãos do Eldorado)

segunda-feira, 9 de dezembro de 2024

Ao borrar a fronteira entre realidade e ficção, Cervantes não apenas celebra a gênese desta como tal. A incerteza de lugar, nome e ação cumpre uma função política, leva a desconfiar de todo dogma, sejam os do Concílio de Trento, das leis da pureza de sangue ou da Santa Inquisição. Cuidado, Torquemada.

 

(Carlos Fuentes – O milagre de Machado de Assis) 

sexta-feira, 6 de dezembro de 2024

 

A ESCANDALOSA BELEZA DO MAL

 

O que me irrita em Adorno é o método do curto-circuito que liga com uma facilidade perigosa as obras de arte às causas, às consequências ou às significações políticas (sociológicas); as reflexões extremamente cheias de nuances (os conhecimentos musicológicos de Adorno são admiráveis) levam desse modo a conclusões extremamente pobres; na verdade, visto que as tendências políticas de uma época são sempre redutíveis  a duas únicas tendências opostas, acabamos por classificar uma obra de arte no lado do progresso ou no lado da reação; e como a reação é o mal, a inquisição pode abrir seus processos.

 

A sagração da primavera: um balé que termina com o sacrifício de uma moça que deve morrer para que a primavera ressuscite. Adorno: Stravinski está do lado da barbárie; sua “música não se identifica com a vítima, mas com a instância destrutiva” (pergunto-me: por que o verbo “identificar-se?” como é que Adorno sabe se Stravinski “se identifica” ou não? por que não dizer “pinta”, “faz um retrato?”, “uma figura”, “representa”? resposta: porque apenas a identificação com o mal é culpada e pode legitimar um processo).

 

Desde sempre, profunda, violentamente, detesto aqueles que querem encontrar numa obra de arte uma atitude (política, filosófica, religiosa etc), em vez de procurar uma intenção de conhecer, de compreender, de apreender este ou aquele aspecto da realidade. A música, antes de Stravinski, nunca soubera dar uma forma aos ritos bárbaros. Não se sabia imaginá-los musicalmente. O que quer dizer: não se sabia imaginar a beleza da barbárie. Sem sua beleza, essa barbárie continuaria incompreensível. (Frisando: para conhecer a fundo esse ou aquele fenômeno, é preciso compreender sua beleza, real ou potencial.) Dizer que um rito sangrento possui uma beleza, eis o escândalo, insuportável, inaceitável. No entanto, sem compreender esse escândalo, sem ir até o fundo desse escândalo, não podemos compreender grande coisa sobre o homem. Stravinski dá ao rito bárbaro uma forma musical forte, convincente, mas que não mente: escutemos a última sequência da Sagração, a dança do sacrifício: o horror não é escamoteado. Está lá. Que seja apenas mostrado? Que não seja denunciado? Mas se ele fosse denunciado, isto é, privado de sua beleza, mostrado em sua feiura, seria uma deslealdade, uma simplificação, uma “propaganda”. É porque é belo que o assassinato da moça é tão terrível.

 

Assim como ele fez um retrato da missa, um retrato de uma festa campestre (Petrouchka). Stravinski fez aqui o retrato do êxtase bárbaro. É ainda mais interessante que ele tenha se declarado sempre e explicitamente partidário do princípio apolíneo, contrário ao princípio dionisíaco: A sagração da primavera (notadamente suas danças rituais) é o retrato apolíneo do êxtase dionisíaco: nesse retrato, os elementos extáticos (a batida agressiva do ritmo, alguns motivos melódicos extremamente curtos, muitas vezes repetidos, nunca desenvolvidos e parecendo gritos) são transformados em grande arte requintada (por exemplo, o ritmo, apesar de sua agressividade, torna-se tão  complexo na alternância rápida de compassos diferentes que cria um tempo artificial, irreal, inteiramente estilizado); no entanto, a beleza apolínea desse retrato da barbárie não esconde o horror; ela nos mostra que no fundo do êxtase não se encontra senão a dureza do ritmo, as batidas severas da percussão, a insensibilidade extrema, a morte.  


(Milan Kundera - Os testamentos traídos)

domingo, 1 de dezembro de 2024

 

Andar é mapear com os pés. Ajuda-nos a unir peças de uma cidade, conectando bairros que, de outro modo, ficariam como entidades avulsas, planetas diferentes ligados entre si, sustentando-se embora distantes. Gosto de ver como, na verdade, se mesclam, gosto de perceber os limites entre eles. Andar ajuda a me sentir em casa. Há um leve prazer em ver como vim a conhecer bem a cidade com minhas andanças a pé, atravessando bairros diferentes da cidade, alguns que eu conhecia bastante bem, outros que posso ter deixado de ver por algum tempo, como se retomasse contanto com alguém que conheci certa vez numa festa.

 

Às vezes ando porque estou com a cabeça cheia de coisas, e andar me ajuda a encaminhá-las. Solvitur ambulando, como dizem em latim, solucionar andando.

 

[...]

 

Ando porque, de certa forma, é como ler. Ficamos inteirados dessas vidas e conversas que não têm nada a ver conosco, mas que podemos entreouvir. Às vezes o ambiente está superlotado; às vezes as vozes são altas demais. Mas há sempre companhia. A gente não está só. A gente anda na cidade com os vivos e os mortos, lado a lado.

 

(Lauren Elkin – Flâneuse)

quinta-feira, 31 de outubro de 2024

 

A poesia é uma ação passageira ou solene em que entram em medidas iguais a solidão e a solidariedade, o sentimento e a ação, a intimidade de si mesmo, a intimidade do homem e a secreta revelação da natureza.

 

(Pablo Neruda – A poesia não terá cantado em vão)

quinta-feira, 24 de outubro de 2024

 

O tempo lava e desenvolve, ordena e continua. E, então, que fica das pequenas conspirações do silêncio, dos pequenos frios sujos da hostilidade? Nada, e na casa da poesia nada permanece a não ser o que foi escrito com sangue para ser ouvido pelo sangue.

 

(Pablo Neruda – Conduta e poesia)

quarta-feira, 9 de outubro de 2024

 

O meu avô foi preso três vezes e torturado pela polícia política. Nunca falava disso. Quase vinte anos depois da sua morte, o meu pai descobriu um livro – na biblioteca dele – chamado Eles vieram de madrugada, da autoria de Manuela Câncio Reis. Na página de rosto, o meu avô dedicou-me umas palavras. Tinha eu onze anos na altura em que ele as escreveu. Foi com emoção que abri o livro e li:

 

Para o meu neto, para que ele perceba um pouco daquilo que eu passei.

 

Este livro deixou então de ser de Manuela Câncio Reis para passar a ser o livro que o meu avô me escreveu. E a voz que eu ouvi enquanto li o livro era a sua.

 

(Afonso Cruz – O vício dos livros)

segunda-feira, 9 de setembro de 2024

 

Na minha vida de poeta os meus contatos têm sido sempre com gente nova, o que talvez explique que venha envelhecendo devagar. Não é que eu tenha, em tempo algum, procurado os novos: jamais procurei ninguém, o que de minha parte era timidez, não orgulho. Mas sempre, desde Afonso Lopes de Almeida e Ribeiro Couto, fui procurado por gente mais moça que eu. Estreei com uma geração que não era a minha, e nas gerações seguintes vim encontrando grandes amigos em suas maiores figuras. Agora está aí roncando bravura a chamada geração de 45: há nela uma meia dúzia de talentos que não me toleram nem como poeta nem como homem. Dou-lhes razão, porque, como o dr. Strauss do meu confrade Austregésilo, eu “positivamente não gosto de mim”. Mas eles acabarão gostando: sei, por experiência, que no Brasil todo sujeito inteligente acaba gostando de mim.

 

(Manuel Bandeira – Itinerário de Pasárgada)

domingo, 18 de agosto de 2024

 

Nos gramados regulares do Parque Ibirapuera
Um anjo da Solidão pousa indeciso sobre meus ombros
A noite traz a lua cheia e teus poemas, Mário de Andrade, regam minha
          imaginação
Para além do parque teu retrato em meu quarto sorri
          para a banalidade dos móveis
Teus versos rebentam na noite como um potente batuque
          fermentado na rua Lopes Chaves
Por detrás de cada pedra
Por detrás de cada homem
Por detrás de cada sombra
O vento traz-me o teu rosto
Que novo pensamento, que sonho sai de tua fronte noturna?
É noite. E tudo é noite.
É noite nos pára-lamas dos carros
É noite nas pedras
É noite nos teus poemas, Mário!
Onde anda agora a tua voz?
Onde exercitas os músculos da tua alma, agora?
Aviões iluminados dividem a noite em dois pedaços
Eu apalpo teu livro onde as estrelas se refletem
          como numa lagoa

É impossível que não haja nenhum poema teu
          escondido e adormecido no fundo deste parque
Olho para os adolescentes que enchem o gramado
          de bicicletas e risos
Eu te imagino perguntando a eles?
          onde fica o pavilhão da Bahia?
          qual é o preço do amendoim?
          é você meu girassol?
A noite é interminável e os barcos de aluguel
          fundem-se no olhar tranquilo dos peixes
Agora, Mário, enquanto os anjos adormecem devo
          seguir contigo de mãos dadas noite adiante
Não só o desespero estrangula nossa impaciência
Também nossos passos embebem as noites de calafrios
Não pares nunca meu querido capitão-loucura
Quero que a Pauliceia voe por cima dos árvores
          suspensa em teu ritmo

 

(Roberto Piva – No parque Ibirapuera)

domingo, 7 de julho de 2024

 

[...]

uma noite metida na outra

como a língua na boca

eu diria

como uma gaveta no armário

metida no armário (mas

embaixo: o membro na vagina)

ou como roupas pretas

sem uso dentro da gaveta

ou como uma coisa suja

(uma culpa)

dentro de uma pessoa

enfim como

uma gaveta de lama

dentro de um armário de lama

[...]

 

(Ferreira Gullar – Poema sujo)

sexta-feira, 5 de julho de 2024

 

Estragon: Estou cansado. (Pausa) Vamos embora.

Vladimir: A gente não pode.

Estragon: Por quê?

Vladimir: Estamos espetando Godot.

Estragon: É mesmo. (Pausa) O que vamos fazer, então?

Vladimir: Não há nada a fazer.

Estragon: Mas não aguento mais.

 

(Samuel Beckett – Esperando Godot)

terça-feira, 2 de julho de 2024

 

tic tac tic tac

pulsando há 45 anos

esse coração oculto

pulsando no meio da noite, da neve, da chuva

debaixo da capa, do paletó, da camisa

debaixo da pele, da carne,

combatente clandestino aliado da classe operária

meu coração de menino

 

(Ferreira Gullar – Poema sujo)