... Quinta-feira, 3 de abril de 2025,
06:23.
Sonhei
que estava morto. Passeava ao longo de uma praia, que era também uma
biblioteca. Ao fundo, sentado numa rocha, junto ao mar, vi um velho. A mão direita
acariciava uma bengala invisível.
Reconheci-o
logo. Era Jorge Luis Borges.
Aproximei-me:
–
O senhor também está morto? – perguntei.
–
Não tenho certeza... – retorquiu Borges. – Talvez eu seja apenas um livro à
espera de um leitor.
–
Eu sim, estou morto! – confessei. – Eu estou completamente morto! Mas mesmo
sabendo que estou morto, e que não posso ficar mais morto do que estou agora,
continuo sentindo muito medo da morte.
Borges
tentou tranquilizar-me:
–
Imagine que a vida é um livro. A morte não é o fim do livro. É apenas a mesma
história, contada por outro narrador.
Sentei-me
ao seu lado. Dei-me conta de que tinha os sapatos cheios de areia. Descalcei-os
e sacudi-os.
–
Sabe dizer-me o que é a solidão? – perguntei.
Borges
hesitou um breve instante.
A
seguir agitou no ar a bengala invisível, apontado os livros ao redor:
–
Está vendo está biblioteca? Imagine que todos estes livros tivessem sido
escritos por si. Todos! Tantos livros e uma única voz. A esse inferno
poderíamos chamar solidão.
(José
Eduardo Agualusa – Tudo sobre Deus)