quinta-feira, 23 de julho de 2026

 

... Quinta-feira, 3 de abril de 2025, 06:23.

 

Sonhei que estava morto. Passeava ao longo de uma praia, que era também uma biblioteca. Ao fundo, sentado numa rocha, junto ao mar, vi um velho. A mão direita acariciava uma bengala invisível.

 

Reconheci-o logo. Era Jorge Luis Borges.

 

Aproximei-me:

 

– O senhor também está morto? – perguntei.

 

– Não tenho certeza... – retorquiu Borges. – Talvez eu seja apenas um livro à espera de um leitor.

 

– Eu sim, estou morto! – confessei. – Eu estou completamente morto! Mas mesmo sabendo que estou morto, e que não posso ficar mais morto do que estou agora, continuo sentindo muito medo da morte.

 

Borges tentou tranquilizar-me:

 

– Imagine que a vida é um livro. A morte não é o fim do livro. É apenas a mesma história, contada por outro narrador.

 

Sentei-me ao seu lado. Dei-me conta de que tinha os sapatos cheios de areia. Descalcei-os e sacudi-os.

 

– Sabe dizer-me o que é a solidão? – perguntei.

 

Borges hesitou um breve instante.

 

A seguir agitou no ar a bengala invisível, apontado os livros ao redor:

 

– Está vendo está biblioteca? Imagine que todos estes livros tivessem sido escritos por si. Todos! Tantos livros e uma única voz. A esse inferno poderíamos chamar solidão.

 

(José Eduardo Agualusa – Tudo sobre Deus)