sábado, 19 de agosto de 2023

no escrever aquilo a que me dispus, não me confinarei nem às suas regras nem às de qualquer homem que jamais vivesse.

 

Àqueles, todavia, que preferem não remontar tão longe nestas particularidades, o melhor conselho que posso dar é pularem o restante deste capítulo, pois declaro antecipadamente tê-lo escrito apenas para os curiosos e os indiscretos.

 

(Laurence Sterne – A vida e as opiniões do cavalheiro Tristram Shandy)



quinta-feira, 15 de junho de 2023

Depois de fechar o livro, o leitor ideal sente que, se não tivesse lido, o mundo seria mais pobre.

 

O leitor ideal possui um perverso senso de humor.

 

O leitor ideal jamais conta quantos livros tem.

 

O leitor ideal é generoso e ávido ao mesmo tempo.

 

O leitor ideal lê toda literatura como se fosse anônima.

 

O leitor ideal gosta de usar o dicionário.

 

O leitor ideal julga o livro pela capa.

 

Quando lê um livro de séculos atrás, o leitor ideal se sente imortal.

 

[...]

 

O leitor ideal não tem uma nacionalidade precisa.

 

[...]

 

Pinochet, que proibiu D. Quixote por pensar que incitava a desobediência civil, foi o leitor ideal desse livro.

 

[...]

 

O leitor ideal não se preocupa com anacronismos, a verdade documentada, a exatidão histórica, a precisão topográfica. O leitor ideal não é um arqueólogo.

 

[...]

 

O leitor ideal é alguém com quem o autor gostaria de varar a noite bebendo vinho.

 

Um leitor ideal não deveria ser confundido com um leitor virtual.

 

Um escritor nunca é seu próprio leitor ideal.

 

A literatura não depende de leitores ideais, mas apenas de leitores suficientemente bons.

 

(Alberto Manguel – Notas para uma definição do leitor ideal) 


segunda-feira, 5 de junho de 2023

 

D. Quixote de La Mancha é um livro subversivo. Contra a autoridade arbitrária dos nobres e dos ricos, contra o egoísmo e a infidelidade das pessoas do povo, contra o arrogante equívoco dos letrados e universitários. D. Quixote insiste em que o principal dever do leitor é agir no mundo com honestidade moral e intelectual, sem se deixar convencer por slogans tentadores e apelos emotivos, nem acreditar em notícias aparentemente verdadeiras sem verificá-las. Quem sabe esse seu modesto princípio possa nos tornar, a nós, leitores nesta sociedade caótica em que vivemos, mais tolerantes e menos infelizes.

 

(Alberto Manguel – Notas para uma definição do leitor ideal)

quarta-feira, 24 de maio de 2023

 

Alexis de Tocqueville não teria escrito A democracia na América nem Marx escreveria O capital se se tivessem proposto tão somente a tarefa que podiam realizar. Cabe a nós, epígonos, preencher as lacunas ou indicar erros. No que se refere às tarefas históricas ou políticas, cada um responderá segundo seu temperamento ou seu humor. Os franceses continuam a celebrar Napoleão, que fez correr mais sangue que qualquer outro francês e que, no final, deixou a França menor, mais fraca, mais próxima do declínio do que a havia encontrado. Nenhum dos soberanos que pretendeu dar aos franceses a paz e a prosperidade encontrou ainda um advogado entre os historiadores, embora estes tenham sido ganhos pelo pacifismo. Tão somente os liberais, pessimistas e talvez sábios, convidam a humanidade a propor-se tão somente tarefas que possa realizar. E é por isso que eles não fazem a história e contentam-se habitualmente em comentá-la. Os marxistas pertencem a uma outra família; eles medem as tarefas com o metro dos seus sonhos e não de suas forças. Humanos, demasiadamente humanos, se, para parafrasear uma célebre afirmação de André Gide, cada um deve preferir a si mesmo aquilo que o devora – ou, por vezes, aquilo que devora seus semelhantes.

 

(Raymond Aron – De uma sagrada família a outra)

sábado, 18 de março de 2023

Lembrou-se então das heroínas dos livros que lera, e toda aquela legião lírica de mulheres adúlteras começou a cantar-lhe na memória, com vozes de irmãs que a seduziam. Tornava-se ela mesma agora parte autêntica dessas imaginações e realizava o longo devaneio da sua juventude, enquadrando-se naquele tipo de mulher apaixonada que tanto invejara. Além disso, Emma sentia uma satisfação de vingança. Já sofrera bastante! Mas agora triunfava, e o amor, por tanto tempo reprimido, jorrava livremente em alegre efervescência. Saboreava-o sem remorsos, sem inquietude, sem desassossego. O dia seguinte passou-se numa nova doçura. Fizeram juramentos um ao outro. Rodolphe interrompia-a com os seus beijos; ela pedia-lhe, fixando-lhe as pálpebras semicerradas, que a chamasse mais uma vez pelo nome e lhe repetisse que a amava. 

 

(Gustave Flaubert – Madame Bovary)

sábado, 25 de fevereiro de 2023

 

Durante certo tempo, o pânico de ser despedido pelo aperto de mão de seu chefe conviveu com seu medo de pessoas que se aproximavam para dizer-lhe que devia publicar mais. Quando lhe perguntavam por que não escrevia mais, Juan Rulfo costumava responder:

 

- É que morreu meu tio Celerino, que era quem me contava as histórias.

 

(Enrique Vila-Matas – Bartleby e companhia)

domingo, 29 de janeiro de 2023

 

FOTOS: O ESCORPIÃO

 

Londres, estádio de Wembley, outono de 1995.

 

A seleção colombiana de futebol desafia o venerável futebol inglês em seu templo maior, e René Higuita faz uma defesa jamais vista.

 

Um atacante inglês dispara um tiro fulminante. Com o corpo na horizontal no ar, o goleiro deixa a bola passar e a devolve com os calcanhares, dobrando as pernas como um escorpião torce a cauda.

 

Vale a pena parar e olhas as fotos desse documento de identidade colombiana. Sua força de revelação não está na proeza esportiva, e sim no sorriso que atravessa a cara de Higuita, de orelha a orelha, enquanto comete seu sacrilégio imperdoável.

 

(Eduardo Galeano – Espelhos: uma história quase universal)