sábado, 18 de março de 2023

Lembrou-se então das heroínas dos livros que lera, e toda aquela legião lírica de mulheres adúlteras começou a cantar-lhe na memória, com vozes de irmãs que a seduziam. Tornava-se ela mesma agora parte autêntica dessas imaginações e realizava o longo devaneio da sua juventude, enquadrando-se naquele tipo de mulher apaixonada que tanto invejara. Além disso, Emma sentia uma satisfação de vingança. Já sofrera bastante! Mas agora triunfava, e o amor, por tanto tempo reprimido, jorrava livremente em alegre efervescência. Saboreava-o sem remorsos, sem inquietude, sem desassossego. O dia seguinte passou-se numa nova doçura. Fizeram juramentos um ao outro. Rodolphe interrompia-a com os seus beijos; ela pedia-lhe, fixando-lhe as pálpebras semicerradas, que a chamasse mais uma vez pelo nome e lhe repetisse que a amava. 

 

(Gustave Flaubert – Madame Bovary)

sábado, 25 de fevereiro de 2023

 

Durante certo tempo, o pânico de ser despedido pelo aperto de mão de seu chefe conviveu com seu medo de pessoas que se aproximavam para dizer-lhe que devia publicar mais. Quando lhe perguntavam por que não escrevia mais, Juan Rulfo costumava responder:

 

- É que morreu meu tio Celerino, que era quem me contava as histórias.

 

(Enrique Vila-Matas – Bartleby e companhia)

domingo, 29 de janeiro de 2023

 

FOTOS: O ESCORPIÃO

 

Londres, estádio de Wembley, outono de 1995.

 

A seleção colombiana de futebol desafia o venerável futebol inglês em seu templo maior, e René Higuita faz uma defesa jamais vista.

 

Um atacante inglês dispara um tiro fulminante. Com o corpo na horizontal no ar, o goleiro deixa a bola passar e a devolve com os calcanhares, dobrando as pernas como um escorpião torce a cauda.

 

Vale a pena parar e olhas as fotos desse documento de identidade colombiana. Sua força de revelação não está na proeza esportiva, e sim no sorriso que atravessa a cara de Higuita, de orelha a orelha, enquanto comete seu sacrilégio imperdoável.

 

(Eduardo Galeano – Espelhos: uma história quase universal)

sexta-feira, 23 de dezembro de 2022

 

AS SONÂMBULAS

 

Na cidade em que nasci viviam uma mulher e sua filha, que andavam durante o sono.

 

Certa noite, enquanto o silêncio envolvia o mundo, a mulher e sua filha, caminhando adormecidas, encontraram-se em seu jardim encoberto de sereno.

 

E a mãe falou: “Até que enfim, minha inimiga! Você que destruiu minha juventude – que construiu sua vida sobre as ruínas da minha. Tenho vontade de matá-la!”.

 

E a filha falou: “Oh, mulher odiosa, egoísta e velha! Que me impede de deixar meu lado mais livre vir à tona! Que gostaria que minha vida fosse um eco de sua vida opaca! Como eu queria que estivesse morta!”.

 

Nesse momento o galo cantou, e ambas acordaram. A mãe perguntou gentilmente: “É você, minha cara?”. E a filha respondeu gentilmente: “Sim, querida”.

 

(Khalil Gibran – O louco)

quarta-feira, 21 de dezembro de 2022

 

A realidade de outra pessoa não está no que ela revela para você, mas no que não pode revelar.

 

Portanto, se quiser entendê-la, escute não o que ela diz, mas sim o que ela não diz.

 

(Khalil Gibran – Areia e espuma)

sábado, 5 de novembro de 2022

 

Ora, em tempos calmos, nadar no mar aberto é tão fácil para um nadador experiente quanto andar numa carruagem em terra. Mas a terrível solidão é insuportável. A intensa concentração do eu no meio de tal imensidão impiedosa, meu Deus, quem pode exprimir isso? Observe os marinheiros como se banham na calmaria em pleno oceano – observe como ficam perto do navio, nadando apenas ao longo do costado.

 

(Herman Melville – Moby Dick)

domingo, 16 de outubro de 2022

A enfermidade era a forma licenciosa da vida. E a vida, por sua vez? Não passava ela, quiçá, de uma doença infecciosa da matéria, assim como aquilo que se podia denominar de geração espontânea da matéria talvez fosse apenas uma enfermidade, uma excrescência causada por uma irritação do imaterial? O início da marcha para o mal, para a voluptuosidade e para morte dava-se, sem dúvida, no lugar onde, provocada pelo prurido de uma infiltração desconhecida, realizava-se aquela primeira condensação do espírito, mescla de prazer e de repulsa, que constituía a fase mais primitiva do substancial, a transição do imaterial ao material. Eis o que era o pecado original. A segunda geração espontânea, a criação do orgânico pelo inorgânico já não era mais do que uma intensificação maligna do progresso do corpo em direção à consciência, da mesma forma que a enfermidade do organismo era um exagero ébrio e um relevo indecente da sua natureza física. A vida chegava a ser apenas o próximo passo no caminho aventuroso do espírito que se tornara impudico, o cálido reflexo do pudor da matéria que fora despertada à sensibilidade e se mostrara disposta a corresponder ao apelo... 

 (Thomas Mann – A montanha mágica)