Proposição
42. A beatitude não é o prêmio da virtude, mas a própria virtude; e não a
desfrutamos porque refreamos os apetites lúbricos, mas, em vez disso, podemos
refrear os apetites lúbricos porque a desfrutamos.
(Espinoza
– Ética)
SPINOZA
Gosto de ver-te, grave e solitário,
Sob o fundo de esquálida candeia,
Nas mãos a ferramenta de operário,
Na cabeça a coruscante ideia.
E enquanto o pensamento delineia
Uma filosofia, o pão diário
A tua mão a labutar granjeia
E achas na independência o teu salário.
Soem cá fora agitações e lutas,
Sibila o bafo aspérrimo do inverno,
Tu trabalhas, tu pensas, tu executas
Sóbrio, tranquilo, desvelado e terno,
A lei comum, e morres e transmutas
O suado labor em prêmio eterno.
(Machado de Assis)
Camus
era uma aventura singular de nossa cultura, um movimento cujas fases e cujo
termo final tratávamos de compreender. Representava neste século e contra a
história, o herdeiro atual dessa longa fila de moralistas cujas obras
constituem talvez o que há de mais original nas letras francesas. Seu humanismo
obstinado, estreito e puro, austero e sensual, travava um combate duvidoso
contra os acontecimentos em massa e disformes deste tempo. Mas, inversamente,
pela teimosia de suas repulsas, reafirmava, no coração de nossa época, contra
os maquiavélicos, contra o bezerro de ouro do realismo, a existência do fato
moral. Era, por assim dizer, esta inquebrantável afirmação. Por pouco que se o
lesse ou refletisse a respeito, chocávamos com os valores humanos que ele
sustentava em seu punho fechado, pondo em julgamento o ato político. Inclusive
seu silêncio, nestes últimos anos, tinha um aspecto positivo: este cartesiano
do absurdo se negava a abandonar o terreno seguro da moralidade e entrar nos
incertos caminhos da prática. Nós o adivinhávamos e adivinhávamos também os
conflitos que calava, pois a moral, se considerada isoladamente, exige e
condena a rebelião. Qualquer coisa que fosse o que Camus tivesse podido fazer
ou decidir à sua frente, nunca teria deixado de ser uma das forças principais
de nosso campo cultural, nem de representar à sua maneira a história da França
e de seu século.
A
ordem humana segue sendo só uma desordem; é injusta e precária; nela se mata e
se morre de fome; mas pelo menos a fundam, a mantêm e a combatem, os homens.
Nessa ordem Camus devia viver: este homem em marcha nos punha entre
interrogações, ele mesmo era uma interrogação que procurava sua resposta; vivia
no meio de uma longa vida; para nós, para ele, para os homens que fazem com que
a ordem reine como para os que a recusam, era importante que Camus saísse do
silêncio, que decidisse, que concluísse. Raramente os caracteres de uma obra e
as condições do momento histórico exigiram com tanta clareza que um escritor
vivesse.
Para
todos os que o amaram há nesta morte um absurdo insuportável. Mas, teremos que
aprender a ver esta obra truncada como uma obra total. Na medida mesmo em que o
humanismo de Camus contém uma atitude humana frente à morte que havia de
surpreendê-lo, na medida em que sua busca orgulhosa e pura da felicidade
implicava e reclamava a necessidade desumana de morrer, reconheceremos nesta
obra e nesta vida, inseparáveis uma de outra, a tentativa pura e vitoriosa de
um homem reconquistando cada instante de sua existência frente à sua morte
futura.
(Escrito
por Jean-Paul Sartre em 05 de janeiro de 1960, um dia após a morte de Albert
Camus)
O
caso de Lindalva é especial. Descasou cedo de um fazendeiro de Marajó e aos 21
anos já estava no Rio com as pernas e cintura que Deus lhe dera de benções.
Dizem que mulher paraense tem perna fina e bunda seca. Injustiça do vulgo. Aí
está Lindalva até hoje, cada dia mais bem feita, ainda que perto dos quarenta.
Passou dez anos no Rio (deixou com a mãe a filha pequenina) fazendo michê com
clientes de hotel cinco estrelas. Até que arranjou um namorado, também
fazendeiro, só que paulista. Já estava de malas e corações prontos para
acompanhar o ricaço quando descobriu que ele era casado, com mansão na Avenida
Paulista. Lindalva não conversou, nem se despediu, mais que tudo não chorou:
tomou avião para Belém do Pará. Foi ver a filha, já taludinha, no internato do
colégio de freiras, passou um fim de semana com ela no Mosqueiro, reviu duas ou
três antigas amizades de escola e de procissão de festa do Círio de Nazaré. Uma
delas mudou o caminho de Lindalva. Estava chegando do garimpo de Itaituba, para
onde fora a fim de fazer a vida, vivia então como a amiga estava vendo, tudo do
bom e do melhor, e com dinheiro no over. Lindalva, dona de duas sílabas
sinceras, e que já tinha a vocação profissional, não fez outra coisa que mudar
de praça. Uma semana depois já estava de casa alugada na capital do garimpo do
Tapajós. Vistosa, cadeiruda, olhar de onça fingida, Lindalva virou a cabeça dos
pobres e começou a esvaziar os bolsos dos endinheirados. Só dava pra piloto ou
pra dono de pista, de vez em quando para um garimpeiro que bamburrava. Lindalva
ficou menos de um ano, um dia sem mais nem menos desapareceu: é verdade que entrou
no avião rindo feliz e dando pra todo mundo. Ganhou seu bom dinheiro, suado,
graças aos seus naturais talentos mas também à sua engenhosa imaginação.
Asseguro que o fato é verídico, quem me contou – e contou rindo – passou pelas
artes dela.
Lindalva
fazia tudo o que sabia para fazer o parceiro feliz. Assunto resolvido, ela já
no robe de seda, o homem pedia mais. Ela não dizia que não, mas condicionava:
só se for como eu gosto. Lindalva gostava era assim: endurecia o pau do cabra,
até deixá-lo tinindo. Depois lambuzava todinho, devagar, com manteiga. Agora,
dizia ela, polvilha ele com ouro, até ficar como se fosse um pau feito de ouro
de verdade. Naquela altura dos conformes o homem não se fazia de rogado. Vem
depressa, pedia Lindalva, como se estivesse faminta de macho e não de metal.
Quando o parceiro já não dava mais, a moça chegava com uma bacia esmaltada e um
lenço de seda, sabonete perfumado e lavava, cuidadosa, delicadamente, o pau do
camarada, no qual não ficava o mais ínfimo pozinho.
Quando
se via só, Lindalva partia para a segunda parte da extração do ouro: o que lhe
ficara dentro da buceta. De cócoras sobre a mesma bacia, ela injetava um
abundante jorro de água na vagina com a ajuda de uma pera de borracha adequada
a esse tipo de operação.
Lindalva
acabou cheia de grana com a sua invenção do cacete dourado.
(Thiago
de Mello – Amazônia: a menina dos olhos)
Saímos
de Manaus numa lancha pequena, e no meio da manhã navegamos no coração do
arquipélago das Anavilhanas. A ânsia de encontrar Dinaura me deixou desnorteado.
A ânsia e as lembranças da Boa Vida. A visão do rio Negro derrotou meu desejo
de esquecer o Uaicurapá. E a paisagem da infância reacendeu minha memória,
tanto tempo depois. Costelas de areia branca e estirões de praia em contraste
com a água escura; lagos cercados por uma vegetação densa; poças enormes,
formadas pela vazante, e ilhas que pareciam continente. Seria possível
encontrar uma mulher naquela natureza tão grandiosa? No fim da manhã alcançamos
o paraná do Anum e avistamos a ilha do Eldorado. O prático amarrou os cabos da
lancha no tronco de uma árvore; depois procuramos o varadouro indicado no mapa.
A caminhada de mais de duas horas na floresta foi penosa, difícil. No fim do
atalho, vimos o lago do Eldorado. A água preta, quase azulada. E a superfície
lisa e quieta como um espelho deitado na noite. Não havia beleza igual. Poucas
casas de madeira entre a margem e a floresta. Nenhuma voz. Nenhuma criança, que
a gente sempre vê nos povoados mais isolados do Amazonas. Os sons dos pássaros
só aumentavam o silêncio. Numa casa com teto de palha pensei ter visto um
rosto. Bati à porta, e nada. Entrei e vasculhei os dois cômodos separados por
um tabique da minha altura. Um volume escuro tremia num canto. Fui até lá, me
agachei e vi um ninho de baratas-cascudas. Senti um abafamento; o cheiro e o
asco dos insetos me deram um suadouro. Lá fora, a imensidão do lago e da
floresta. E silêncio. Aquele lugar tão bonito, o Eldorado, era habitado pela
solidão.
(Milton
Hatoum – Órfãos do Eldorado)
Ao borrar a fronteira entre realidade e ficção,
Cervantes não apenas celebra a gênese desta como tal. A incerteza de lugar,
nome e ação cumpre uma função política, leva a desconfiar de todo dogma, sejam
os do Concílio de Trento, das leis da pureza de sangue ou da Santa Inquisição.
Cuidado, Torquemada.
(Carlos Fuentes – O milagre de Machado de Assis)
A
ESCANDALOSA BELEZA DO MAL
O
que me irrita em Adorno é o método do curto-circuito que liga com uma facilidade
perigosa as obras de arte às causas, às consequências ou às significações
políticas (sociológicas); as reflexões extremamente cheias de nuances (os
conhecimentos musicológicos de Adorno são admiráveis) levam desse modo a
conclusões extremamente pobres; na verdade, visto que as tendências políticas
de uma época são sempre redutíveis a
duas únicas tendências opostas, acabamos por classificar uma obra de arte no
lado do progresso ou no lado da reação; e como a reação é o mal, a inquisição
pode abrir seus processos.
A
sagração da primavera: um balé que termina com o sacrifício de uma moça
que deve morrer para que a primavera ressuscite. Adorno: Stravinski está do
lado da barbárie; sua “música não se identifica com a vítima, mas com a
instância destrutiva” (pergunto-me: por que o verbo “identificar-se?” como é
que Adorno sabe se Stravinski “se identifica” ou não? por que não dizer “pinta”,
“faz um retrato?”, “uma figura”, “representa”? resposta: porque apenas a identificação
com o mal é culpada e pode legitimar um processo).
Desde
sempre, profunda, violentamente, detesto aqueles que querem encontrar numa obra
de arte uma atitude (política, filosófica, religiosa etc), em vez de
procurar uma intenção de conhecer, de compreender, de apreender este ou
aquele aspecto da realidade. A música, antes de Stravinski, nunca soubera dar
uma forma aos ritos bárbaros. Não se sabia imaginá-los musicalmente. O que quer
dizer: não se sabia imaginar a beleza da barbárie. Sem sua beleza, essa
barbárie continuaria incompreensível. (Frisando: para conhecer a fundo esse ou
aquele fenômeno, é preciso compreender sua beleza, real ou potencial.) Dizer
que um rito sangrento possui uma beleza, eis o escândalo, insuportável, inaceitável.
No entanto, sem compreender esse escândalo, sem ir até o fundo desse escândalo,
não podemos compreender grande coisa sobre o homem. Stravinski dá ao rito
bárbaro uma forma musical forte, convincente, mas que não mente: escutemos a
última sequência da Sagração, a dança do sacrifício: o horror não é
escamoteado. Está lá. Que seja apenas mostrado? Que não seja denunciado? Mas se
ele fosse denunciado, isto é, privado de sua beleza, mostrado em sua feiura,
seria uma deslealdade, uma simplificação, uma “propaganda”. É porque é belo que
o assassinato da moça é tão terrível.
Assim como ele fez um retrato da missa, um retrato de uma festa campestre (Petrouchka). Stravinski fez aqui o retrato do êxtase bárbaro. É ainda mais interessante que ele tenha se declarado sempre e explicitamente partidário do princípio apolíneo, contrário ao princípio dionisíaco: A sagração da primavera (notadamente suas danças rituais) é o retrato apolíneo do êxtase dionisíaco: nesse retrato, os elementos extáticos (a batida agressiva do ritmo, alguns motivos melódicos extremamente curtos, muitas vezes repetidos, nunca desenvolvidos e parecendo gritos) são transformados em grande arte requintada (por exemplo, o ritmo, apesar de sua agressividade, torna-se tão complexo na alternância rápida de compassos diferentes que cria um tempo artificial, irreal, inteiramente estilizado); no entanto, a beleza apolínea desse retrato da barbárie não esconde o horror; ela nos mostra que no fundo do êxtase não se encontra senão a dureza do ritmo, as batidas severas da percussão, a insensibilidade extrema, a morte.
(Milan Kundera - Os testamentos traídos)